“O mar me ensinou a ter coragem”

Uma entrevista com o premiado diretor David Schurmann
@ Cannes Film Festival

by Luciana Dolabella


Imagems: Copyright © Schurmann Filmes 2025. Todos os direitos reservados.


O diretor David Schurmann leva o mundo consigo em sua história e em seus filmes. Apaixonado pelo cinema desde pequeno, aos 13 anos arriscou seu primeiro mini-documentário. Na época, ele morava em um veleiro, no meio do oceano. Vindo de uma família de famosos velejadores brasileiros, ele conheceu desde cedo todos os tipos de culturas no mundo. “O mar me ensinou a ter coragem”. Isso se vê na sua vida e obra. Com 16 anos decidiu ficar sozinho na Nova Zelândia para estudar cinema, enquanto sua família seguiu viagem.

Por anos trabalhou em muitos documentários até decidir se dedicar à ficção. Seu primeiro longa-metragem foi o filme brasileiro indicado ao Oscar em 2016. O segundo foi uma enorme produção americana em que falavam 4 idiomas. O terceiro é um filme bem brasileiro, “Por um fio”, sobre a história do SUS, baseado em um livro de Drauzio Varella, e o quarto é sobre a Guerra na Síria. David reflete sobre ser diretor, o amor pelo cinema, seus filmes e sua história.


Imagems, da direita para a esquerda, cenas do filme “My Penguin Friend”, “Pequeno Segredo”, “Por um Fio”
Copyright © Schurmann Filmes 2025. Todos os direitos reservados.


Dolabella: Como você começou no cinema?

Schurmann: Foi natural. Eu me apaixonei pelo cinema porque cresci num veleiro desde os 10 anos de idade. O único entretenimento que a gente tinha era música e cinema. E, por incrível que pareça, nos anos 80, todas as ilhas que a gente visitava tinham cinema. Então, eu fui exposto a esse meio cedo e eu adorava contar histórias – e gosto até hoje! Às vezes era um cinema com bancos de madeira. A hora em que a luz apagava e começava a projeção, eu me transportava para aquele mundo. Eu falava com as pessoas: “Nossa, como eu amo cinema!”. Daí comecei a registrar as histórias da minha família pelo mundo. Meus pais me deram uma câmera quando eu tinha 13 anos. O meu primeiro mini-documentário teve 3 minutos e meio. Fiz o filme quando cruzamos o Canal do Panamá. Eu consegui editar, botei música. Todo mundo gostou e se emocionou. Foi assim que comecei. Dali em diante, eu comecei a usar o meu irmão de ator. Fiz um monte de brincadeiras e experimentos. Quando eu cheguei com 16 anos na Nova Zelândia, eu falei para os meus pais que eu ia ficar no país e estudar lá.

Dolabella: Tão novo! E seus pais?

Schurmann: Meus pais sempre me criaram para eu fazer o que eu quisesse. Mas minha mãe diz que o momento mais triste da vida dela não é quando “o filho sai de casa”, mas quando a casa vai embora e deixa o filho. Pois eles foram embora e eu fiquei no país. Ela falou que eu fui ficando pequeno no horizonte. Isso foi antes da internet, antes de tudo isso que há hoje (para se comunicar). Me formei lá e fui contratado com 19 anos para trabalhar para a televisão.

Dolabella: Tudo isso sozinho, super jovem, na Nova Zelândia…

Schurmann: Sim. Fiz minha vida por lá por alguns anos. Nesse meio tempo, meus pais já estavam de volta ao Brasil. A família tinha ficado conhecida lá. E daí, um dia, meu pai me liga e diz: “A gente vai dar outra volta ao mundo de barco. Você não quer vir junto?” Eu respondi: “Eu quero, mas dessa vez eu vou filmar tudo!” A gente filmou dois anos e meio e fez o filme “O mundo em duas voltas”, que foi um dos documentários mais vistos nos cinemas no Brasil. Depois fez a série que ficou muito conhecida no Fantástico. Em 2000, eu voltei para o Brasil. Fiz muitas séries e documentários para o National Geographic. Até vir a história da minha irmã, da Cat, que daí eu decidi que eu queria contar em ficção (“Pequeno Segredo”, 2016).


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“O documentário é bom porque ele te ensina a se virar com
o que você tem. O diretor tem que pensar muito rápido e
resolver problemas.”


Dolabella: E como foi sair do documentário para ficção?

Schurmann: É muito diferente. O documentário é bom porque ele te ensina a se virar com o que você tem. O diretor tem que pensar muito rápido e resolver problemas. O diferente na ficção é dirigir atores. Eu me preparei muito. Fiz vários workshops com a Judith Weston. Hoje sou apaixonado pelo trabalho com atores. Dirigi “Pequeno Segredo” e depois “My Penguin Friend”, que já foi um salto bem grande, pois era um filme internacional com atores importantes, 160 pessoas trabalhando no filme e uma imensa pressão: o filme precisava ser um sucesso comercial.

Dolabella: E um cast de países diferentes – você dirigia atores em diferentes idiomas?

Schurmann: A gente falava espanhol, português, francês e inglês no set.

Dolabella: E como era para você dirigir em quatro idiomas ao mesmo tempo? Você se estressou muito com isso?

Schurmann: Como eu fui criado no mundo, estava acostumado a trocar de idioma. Eu fiquei muito nervoso antes de começar as filmagens pela pressão. Também todo mundo que trabalha com cinema diz: “Não trabalhe com criança, com animal ou com água”. E a gente ia fazer os três nesse filme. Ou seja, fizemos tudo o que teoricamente não se deve fazer. Mas foi uma superprodução, super bacana. Conseguimos convencer os americanos a vir filmar no Brasil, que é uma coisa extremamente difícil, porque eles normalmente vão onde há mais incentivos fiscais para filmagens. A pré-produção nos EUA, as filmagens na região de Angra dos Reis, em Paraty e na Patagônia, a pós-produção na Espanha e o lançamento no mundo inteiro.

Dolabella: Em que projetos você está trabalhando agora?

Schurmann: Estou terminando um filme chamado “Por um Fio”, baseado em um livro do Drauzio Varella. É um superprojeto, com um elenco fenomenal, com Othon Bastos, Zezé Motta, Sandra Coveloni, Bruno Gagliasso e outros atores incríveis. O filme está extraordinário. É um filme que se passa nos anos 70 e 80, que conta um pouco da história desse doutor, do irmão dele e da história do SUS. A gente fala da importância da saúde pública. É um filme comercial e de arte ao mesmo tempo.

Dolabella: Outros projetos?

Schurmann: A gente tem um projeto que a gente ia rodar antes da pandemia, chama “Alepo” (cidade na Síria), sobre uma jornalista americana e um jovem rapaz sírio.

Dolabella: Dessa vez você vai filmar lá na Síria?

Schurmann: Na Jordânia. É um filme absolutamente importante, porque ele fala dessa relação dessa jornalista, desse menino e do que são essas sociedades antes das guerras. O filme começa logo antes do conflito na cidade de Alepo e mostra o que acontece com essas crianças nesses conflitos de guerra. Essa jornalista, que normalmente estava lá no país só para cobrir o que acontecia, de repente não consegue fugir com o início da guerra. A história mostra o que leva essas pessoas, às vezes, a sair do seu país. A gente tem que receber esses migrantes com um olhar diferente.

Dolabella: O que te levou a querer fazer essa história?

Schurmann: Quando me mandaram o roteiro, eu demorei para ler, porque pensei: “Nossa, criança sofrendo… já fiz um filme sobre minha irmã, que tinha HIV e sofreu muito. De novo, não…” Mas eu tive um bom amigo que insistiu muito para eu ler o roteiro. Ele acreditava muito no filme. Quando eu li, pensei: “Eu preciso contar essa história”. Fiquei pensando para quem levar esse tipo de conteúdo para produzir. Precisava ser internacional. Apareceu um produtor que já era um amigo, que tinha começado a empresa dele. Ele adorou o projeto.

Dolabella: De tudo que um diretor de cinema faz, tem algo que você gosta mais?

Schurmann: Eu gosto de cada processo, por isso que eu vivo cada filme profundamente. Eu adoro trabalhar no roteiro. Obviamente, a filmagem é um momento muito estressante, mas é no trabalho com os atores que você vê aquilo que você sonhava se tornando realidade. A montagem sempre foi mais difícil para mim, mas agora estou tendo uma experiência muito positiva, então está mudando um pouco essa perspectiva. Depois vem o lançamento, que é muito legal e também amedrontador. Porque é a hora em que seu “filho”, esse filme que você “criou” por 4, 5, 6 anos, vai para o mundo para levar tapa de pessoas que vão olhá-lo e julgá-lo. E aí é terrível: a gente sofre, a gente chora. Mas faz parte do processo. Você tem que entregar o filme com o máximo que você conseguiu, com o máximo que você tem.


100%. Cada obra que eu crio,
eu quero viver, experimentar.


Dolabella: Tem gente que acha que trabalho criativo não é trabalho.

Schurmann: Aff... O tanto que eu gasto em sola de sapato para poder fazer cada filme é uma loucura! Antes, durante e depois de cada filme. É muito, muito, muito trabalho. As pessoas pensam na filmagem, que demora de 5 a 12 semanas. Mas você tem pelo menos 3 anos antes de preparação, de trabalho com o roteiro, de buscar financiamentos, de convencer um monte de gente a entrar no filme, na equipe, no elenco. Aí você filma muito rápido e depois tem um período de pelo menos um ano de montagem, pós-produção, preparação do lançamento. São muitos anos trabalhando em uma obra muito intensamente. Eu brinco: para todo filme que eu faço, eu dou um pedacinho da minha alma.

Dolabella: É uma dedicação total.

Schurmann: 100%. Cada obra que eu crio, eu quero viver, experimentar. O que eu consegui fazer agora é aproveitar mais a jornada. Antes eu sofria muito durante esses anos de processo e trabalho. Mas eu penso: eu preciso aproveitar a jornada também, porque são muitos anos da minha vida para cada filme.


“Acredite na sua ideia, mas vá com o fluir das coisas.
Vejo pessoas talentosas que acabam não conseguindo fazer
um filme porque são muito teimosas.”


Dolabella: E que recomendação você daria para alguém que está pensando em começar nessa carreira de direção?

Schurmann: Primeiro, a perseverança. Eu conheço muita gente que desistiu, porque é difícil mesmo. As pessoas têm que te conhecer, entender o que você faz. E, quando as coisas não vão ser exatamente como você quer, é preciso ir com o levar das ondas. Acredite na sua ideia, mas vá com o fluir das coisas. Vejo pessoas talentosas que acabam não conseguindo fazer um filme porque são muito teimosas. Você tem que ter uma certa teimosia, mas também precisa ser maleável. E é preciso ter coragem. O mar me ensinou a ter coragem. Coragem de se jogar, de apanhar, de errar – porque a gente quer acertar sempre, mas não dá. Então, eu acho que a perseverança é o primeiro ponto. E você tem que amar o que faz, porque é muito empurrar nessa jornada. Como dizem: “Para fazer um filme, no começo, você empurra uma pedra morro acima. Quando você consegue, você solta a pedra e daí você sai correndo porque a pedra vem correndo atrás de você.” A partir de um momento as coisas andarão muito rápido em um projeto, mas há muito trabalho, dedicação, paciência e perseverança no caminho antes de chegar lá.

Dolabella: Obrigada pela entrevista, David. Muito sucesso com seus próximos filmes!


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